Florinda Oliveira, 1 de outubro de 2026
Memórias do Padre Manuel Antunes, Pároco

Recordo o nosso Fundador como pároco de Santa Cruz
Na década de 50, o Padre Manuel Antunes era pároco de Santa Cruz e eu dava catequese na Pedrulha.
Guardo dessa época uma recordação muito viva do seu cuidado pela formação das catequistas. Todos os meses reunia as catequistas de toda a paróquia para um encontro de formação. Não se preocupava apenas com a organização da catequese; queria que aquelas que tinham a missão de catequizar estivessem também preparadas para a viver e transmitir a fé.
Uma catequese para toda a comunidade
A freguesia de Santa Cruz tinha, naquele tempo, zonas muito carenciadas e algumas não tinham catequese organizada.
Com a ajuda do Instituto, o Padre Manuel Antunes procurou levar a catequese a toda a freguesia. Mas havia uma preocupação muito concreta: formar pessoas da própria comunidade para assumirem essa missão.
À medida que iam surgindo pessoas capazes de tomar essa responsabilidade, o Instituto ia-se retirando pouco a pouco.
Era uma maneira muito própria de servir: estar presente, ajudar a começar, formar e depois confiar.
Cuidar das crianças
O Padre Manuel Antunes tinha também uma atenção especial às crianças.
Todos os meses, as crianças de toda a freguesia tinham a sua tarde de domingo, com filmes divertidos e formativos. Naquele tempo não havia televisão, pelo que havia uma grande adesão.
Eram momentos de alegria, mas também de formação. Havia a preocupação de proporcionar às crianças um ambiente saudável, educativo e cristão.
As muitas carências existentes na freguesia levaram também ao aparecimento de outras iniciativas.
Na Conchada com a colaboração do ISSF surgiu em 1962 o CBESSF e o Padre Manuel Antunes ao terminar as suas funções na paróquia, deixou tudo organizado para a abertura, no bairro do Brinca, do Centro Paroquial.
Para as crianças de toda a freguesia todos os anos foram organizadas fériasna Praia de Mira. Eram uma oportunidade de proporcionar ás crianças experiências que muitas das suas famílias não lhes podiam oferecer: contato com o mar e a natureza, convivência, brincadeira, autonomia, descoberta e movas amizades.
Ao recordar estes acontecimentos, percebe-se como estava atento às necessidades concretas das pessoas, sobretudo dos mais novos, procurando respostas que unissem educação, formação, alegria e cuidado humano.
Firmeza sem levantar a voz
Há uma outra recordação que permanece muito viva.
O senhor Bispo tinha proibido que as festas profanas se realizassem juntamente com as festas religiosas. Um grupo de homens decidiu enfrentar o Padre Manuel Antunes por causa desta decisão.
Assisti ao diálogo que aconteceu na sacristia da Pedrulha.
O Padre Manuel Antunes não levantou a voz. Argumentou calmamente, com serenidade e firmeza. Não se desculpou simplesmente dizendo que a decisão vinha do senhor Bispo. Expôs a sua posição e manteve-se fiel àquilo que lhe tinha sido pedido.
A festa acabou por ser somente religiosa.
Esta recordação revela-me um homem que sabia unir firmeza e serenidade, autoridade e respeito, convicção e capacidade de diálogo.
A fidelidade de todos os dias
Há ainda uma imagem que guardo com particular emoção.
Durante anos, às sete menos dez da manhã, ouviam-se os passos do Padre Manuel Antunes a caminho de Santa Cruz, para começar o dia a confessar e a celebrar a Eucaristia.
Era um horário exigente.
Mas nunca ouvi um lamento pela observância desse horário.
Aquela caminhada diária, repetida ao longo dos anos, dizia muito da sua fidelidade.
Não eram apenas grandes iniciativas que revelavam quem ele era. Eram também estes gestos simples, repetidos todos os dias, que mostravam um sacerdote fiel à sua missão e disponível para servir.
O sacerdote que ficou na memória
Ao recordar hoje estes acontecimentos, compreendo melhor a figura do nosso Fundador.
Antes de ser Fundador, foi sacerdote e pastor.
Foi um homem atento às necessidades das comunidades, formador de catequistas, educador das crianças, promotor de iniciativas para os mais carenciados e um sacerdote que procurava estar próximo das pessoas.
Sabia organizar, formar e confiar responsabilidades. Sabia dialogar sem perder a firmeza. E sabia cumprir, com fidelidade e sem queixas, as exigências da sua missão sacerdotal.
Estas memórias ajudam-nos também a compreender melhor a origem do seu pensamento e do carisma que deixou ao Instituto.
Para o Padre Manuel Antunes, o amor a Deus tinha necessariamente de se transformar em amor concreto pelas pessoas.
A sua vida pastoral foi, por isso, uma expressão daquilo que tantas vezes ensinou: o verdadeiro amor não precisa de fazer barulho. Manifesta-se na fidelidade, no serviço, na atenção aos outros e na entrega silenciosa de cada dia.
É assim que hoje recordo o nosso Fundador:
um sacerdote próximo,
um pastor atento,
um formador exigente,
um homem de diálogo e de firmeza,
e, sobretudo, um servidor fiel de Deus e das pessoas.
Talvez seja esta uma das melhores formas de compreender o homem que esteve na origem do Instituto Secular da Sagrada Família: um sacerdote que procurou fazer do seu quotidiano uma resposta concreta ao Amor de Deus.


